Edit: Esse post foi transferido do meu blog de viagens de 2015/2016


Antes de tudo, não é todo mundo que sente a tal depressão pós intercâmbio, por isso, esse post é dedicado a quem tem dificuldades em voltar à realidade sem ter crises de ansiedade e de vida. 

 


Quarta -feira postei aqui pensamentos pessoais sobre a depressão pós intercâmbio, ou síndrome do regresso ou seja lá o nome que for. Falei sobre a sensação horrível de ré na vida e tédio que gruda na gente e parece que não sai nunca mais. Contei que superei a minha sem grandes feitos ou milagres (apesar de ter levado muitooo tempo e ter recaídas), e prometi mostrar hoje qual a receita. Então lá vai, o Manual de  sobreVivência pós intercâmbio. Porque sobreviver a gente aguenta.

 

1-Foque no lado positivo de todo mundo.

Uma coisa que aprendemos no exterior é enxergar a ¨magia¨ de cada ser humano, a gente aprende que cada pessoa é um universo, um capítulo novo de um livro, e aprendemos a admirar o que é ¨estranho¨. E bom, a sua cidade no Brasil também é feita de pessoas (avá), e cada uma delas, apesar de às vezes parecerem todas iguais e sem nada a acrescentar, também tem um universo mais profundo a ser desvendado.

Se você se permitir se livrar das comparações e dos preconceitos, vai conseguir achar valor e absorver muitos aprendizados daquele contexto. Foque no que as pessoas tem de bom, descubra a história, os problemas, as conquistas, o que te faz rir naquela pessoa. Todo mundo tem um lado bom e algo a te acrescentar, mesmo que à primeira vista não pareça. Disposição pra se abrir pro mundo sem ter uma metralhadora de julgamentos secretos pronta pra disparo me fez muito bem. Eu tinha tendência a resmungar de todo mundo mentalmente, focando em característica rasas e estereótipos que eram diferentes da minha realidade, e aí não dava muita chance às pessoas.

 Exemplo: pessoas que só vão em balada de sertanejo e ficam em pé segurando drink em busca de caça, sem dançar loucamente até o chão pouco se fudend* pra batatinha como eu, são idiotas e fúteis.

Pensar assim me esgotava, me fazia sentir mais solitária que o normal e me impedia de aprender muito com gente incrível.

giphy Talvez eu goste de você, talvez não

 

2– Aceite: Você não pertence a lugar nenhum e pertence ao mundo todo

É muito difícil descobrir que o que antigamente era o normal e parecia ser a única possibilidade de viver feliz, não é mais. É muito difícil ter certeza que não pertence a um lugar e mesmo assim não ter muita escolha imediata a não ser ficar lá. Mas vamos ao fato: depois de morar fora e gostar, você não pertence a lugar nenhum. Se você voltar pro exterior, vai sentir falta do evento com a família e preocupação por estar longe, mas permanecendo no mesmo lugar você nunca vai estar satisfeito, porque sabe que a vida pode ser muito mais incrível. Solução? aproveite o seu presente, porque se um dia você conseguir voltar pra fora, vai sentir falta dele. De alguma coisinha pelo menos. Quando ¨der ruim¨, foque na coisinha.

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eu não sei onde eu pertenço

 

3- Você é forte pra caramba, lembra?

Lembra quando você viajou sozinho consegui transmitir seus sentimentos em outra língua, ou quando apresentou um grande projeto em outro idioma pra pessoas com comportamentos totalmente diferentes do seu,  ou quando dormiu no aeroporto ou na estação de trem, ou ficou sem comer pra poder ir a um show, ou que comeu escorpião e achou bom? Sabe todos esses momentos que te fizeram desafiar o que você ACHAVA que era o seu limite até você morar fora?

Eles expandiram a sua mente e te fizeram descobrir uma força que até então você não sabia que existia em você. Respira fundo e resgate a pessoa forte e destemida que vivia sob o lema ¨não tenho nada a perder¨ que você foi na viagem. Na vida real você também não tem. A vida real também tem um prazo de validade. Esta pessoa quase heróica que você descobriu lá fora está adormecida, sem os estímulos pra despertar que você gostaria, mais está aí. E quando acordar, não vai ter pra ninguém.

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4- Saia de casa, conheça gente nova:

Eu fiquei muito tempo trancafiada em casa sem sentir vontade de sair. E o pior, 90% das vezes que eu saia, me arrependia. Pensava ¨ teria sido melhor ir ver o filme do Pelé¨ ou ¨deveria ter visto uma série debaixo das cobertas e juntado o dinheiro pra viajar¨. Mas ainda existiam os outros 10% de vezes que faziam a saída valer a pena.  Eu comecei a dar muito valor nesses 10%, comecei a ver o lado que me trás aprendizado (ou pelo menos umas risadas) nas pessoas, e comecei a reencontrar, de pouquinho em pouquinho, mais paz interior. Desde um mês atrás só me arrependo 62% das vezes que saio! hehe. Claro, respeite seus momentos de fossa caseira, tem dia que você simplesmente não está afim de sair e ponto, logo, não saia.

 

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Sabe, você não pode seguir em frente vivendo no passado

 

5- Entre no clima de quem é feliz pra caramba e não tem nada a ver com você;

Esse item foi difícil colocar em palavras, mas tem funcionado bizarramente bem. A matemática é simples: Você sai com todos aqueles seus amigos das antigas, que estão muito bem obrigado, satisfeitos com o trabalho, com a vida e com o amor, mas que, querendo ou não, já não tem mais muito a ver com você, seja por gostos pessoais, seja por alguns valores. Pra eles a vida está quase perfeita.

Você sai com eles, come a mesma coisa que eles, vai às mesmas festas que eles, conhece as mesmas pessoas que eles, resumindo, tem o mesmo padrão de vida que pra eles é o auge. Tente enxergar isso pelo viés ¨perfeito¨ que eles enxergam. Mesmo que esse estilo de vida não seja o que você almeja, reconheça que é o que muita gente que você ama ou admira de alguma maneira, ama ter.

Tente enxergar por essa perspectiva, embarque nessa e agradeça pensando ¨é o que tem pra agora, e é o auge pra muita gente!¨. Por incrível que pareça, sair com gente de bem com a vida, aliado ao ¨buscar o lado bom de todo mundo¨ tem me ajudado muito a valorizar o presente. É meio que viver usando um óculos com filtro, mas funciona.

 

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Exemplo : ¨Olha como essa balada insuportável é legal pra muita gente! vou entrar na vibe porque não sou obrigada a ficar sofrendo e já paguei.¨

 

6-Se você sonha em voltar pra fora, determine-se.

ok, temos dois quadros pra esse item aqui: Quadro um, você passa pela deprê, supera, vive bem no seu emprego, acha o amor da sua vida e está satisfeito em viajar só quando der. Isso é ótimo! Essa tranquilidade interior é o sonho de muita gente. Quadro dois: a deprê não passa nunca, e você precisa, a todo custo, arrumar um jeito de morar fora de novo. Foque nisso! Faça PLANOS, e execute! O que você quer pro futuro? Onde você se vê no mês que vem? Daqui a um ano? Em 10 anos?  Você pode se arrepender?  Não fique só com ideias mirabolantes não executáveis na cabeça, porque quando você ver vai ter passado 2 anos (ou 20) e você não vai ter saído do lugar.

Comece qualquer coisa, pesquise bolsa de estudos,  busque empregos no exterior por alguma dessas startups  aqui e aqui, pesquise e planeje as possibilidades e caminhos pra você chegar aonde quer chegar. Viva o seu presente no processo, pode ser que ele te surpreenda! Mas enquanto a surpresa não vem, trabalhe todo dia um pouquinho pelo futuro que você quer.

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7- Se você quer que respeitem o seu momento, respeite o dos outros!

Quando você voltar, todo mundo vai te achar pentelho pra caramba, porque você vai comparar tudo. Vai comparar os relacionamentos, vai comparar o semáforo, a comida, os preços, o buraco da rua, a decoração da loja, a variedade de opções de cor de batom, o comportamento dos cachorros, a bosta dos pombos, a política. TUDO. Mesmo sem perceber!

As pessoas vão te olhar torto, e provavelmente falar mal de você pelas costas, e você vai achar que elas são idiotas e desinteressadas e não sabem de nada da vida. Bom, talvez você até esteja certo. Mas se quer ser respeitado e ouvido, respeite e ouça também, o que é felicidade pra você, não é felicidade pra todo mundo. A gente não faz as comparações por arrogância, mas não é todo mundo que entende, então é bom segurar a empolgação/revolta  às vezes. As pessoas vão perceber a sua humildade e disposição em compreende-las, e vão fazer um esforço maior pra te compreender, e vão te valorizar, e ser valorizado faz bem pra qualquer um.

 

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vamos ter respeitos um pelo outro

 

8- Não perca contato com as pessoas que te compreendem:

Além de manter contato com os amigos de intercâmbio e encontrar outras pessoas na mesma situação, você vai descobrir  onde estão os amigos de verdade, que te entendem até no auge da deprê e chatice. WhatsApp é minha droga. Preciso sempre desabafar com as minhas amigas que passaram pelo o que passei ou não,  mas que me amam com todas as minhas loucuras. Isso é essencial pra minha sanidade mental. Eu ouso dizer que se pode ter é a de ser 100% você mesmo sem se sentir julgado (ou melhor ainda, ser admirado).

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9-Aprenda a ver seu país pelos olhos de um estrangeiro

Pra gente tudo aqui é mais do mesmo. Mas chega um estrangeiro e fica deslumbrado com tudo. Um amigo meu alemão que já fez intercâmbio em Floripa falou ¨como você deixou aquela cidade de praia maravilhosa pra vir pra Alemanha gelada?¨. Tente enxergar as maravilhas e peculiaridades locais como se você fosse um turista.

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10 – Foque em algo que você ama, pelo menos uma coisa.

Quando eu voltei e tive a sensação de ré na vida, parecia que não tinha nem um fiapo de esperança pra me apegar,e ainda ficava com peso na consciência por estar numa puta situação privilegiada e ainda assim não conseguir deixar de me sentir infeliz. Foi muito agonizante, eu precisava fazer algo pra me forçar uma endorfina, ou eu ia ficar louca, ou com depressão. Foi aí que comecei a correr na rua.

Odiava, não aguentava mais de dois minutos, e meu pai me obrigava, e eu odiava mais ainda porque me sentia uma criança sendo mandada pelo pais depois de ter morado sozinha 5 anos, até que, depois de um (bom) tempo, comecei a sentir o efeito do exercício no meu dia a dia, no meu corpo, na minha pele, na minha auto estima, e no funcionamento do meu cérebro. Fiz aula de violão, porque também sempre gostei de música, mas quando eu estava super feliz, o violão nunca era prioridade. Quando senti que precisava de algo pra preencher o vazio que eu estava sentindo, corri atrás da aula pra sentir um prazer, e também, com a mesma finalidade, fiz um curso de ilustração e comecei o blog (e esse eu demorei muito, por causa de medo).

Saia tentando. Saia experimentado. Não precisei pagar pra fazer nada disso. Meu amigo me dava aula de violão, correr na rua é de graça, e o curso eu concorri a uma bolsa e ganhei, e na internet também tem tudo pra você aprender. Aprender coisas novas e se abrir a algo que parecia chato (eu com a corrida) pode ser muito gratificante e fazer uma grande diferença, assim como viajar. Aí no final, por mais que o tempo pareça ¨perdido¨, você vai ter um saldo de novos talentos descobertos e de pequenas metas atingidas, e isso é uma evolução.

 

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Quando você não tem nada, não tem nada a perder, certo?

 

11 – Dane-se a vida dos outros

Não compare a sua vida com a dos outros. Ninguém é 100 por cento feliz. Isso é fato! pode até ser 99, mas uma vida sem nem um probleminha? Dá até preguiça. Todo mundo tem frustrações, segredos, culpa, só que algumas pessoas disfarçam muito bem, ainda mais com filtros e sorrisos nas redes sociais pra auxiliar no processo. Se você ficar se comparando, vai ficar pra baixo, e a sensação de ¨ré na vida¨ não vai te abandonar. Se for pra comparar sua vida com a de alguém, que seja pra se sentir bem, como no item 5.

 

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somos todos bizarros, alguns de nós só são bons em esconder

(obs aleatória: esse filme é ótimo, sério, vejam, tem no Netflix e chama Clube dos 5)

 

12- Ligue o filtro.

Isso não vale só pra quem fez intercâmbio. É regra geral. Muita gente vai tentar dar pitaco na sua vida, falando o que é melhor pra você, sem saber o que você sentiu, sem tentar entender o seu lado e o seu momento. Filtre bem! Ninguém sabe sobre a sua vida, medos, frustrações, limites, metas e vontades como você mesmo. Não desacredite disso.

 

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Quem somos nós, pra dizer a qualquer um o que eles podem ou não fazer?

E nunca, nunca se esqueça, que a vida é uma só, que sobreviver e viver são coisas bem diferentes, que a capacidade humana de sentir coisas que beiram o surreal é praticamente infinita e que você pode sim, sentir tudo aquilo de novo e muito mais, mas sem deixar o presente te passar uma rasteira e te fazer perder o que poderiam ser excelentes anos  de aprendizado e inspiração sofrendo e idealizando.  Aproveite o presente, mas não deixe ninguém destruir tua perspectiva maravilhosa de mundo. A surra de realidade pode vir, mas lembre-se que você tem forças pra levantar antes do nocaute.

relax

Quem tiver mais dicas, fique à vontade para compartilhar. :)